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Palhavras, escritasaborosas

Palavras com e sem açúcar

Palhavras, escritasaborosas

Palavras com e sem açúcar

Um conto de Natal

A nossa força terá de ser um sentimento que não se vê ...

historiasabeirario, 28.12.23

 

 

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A manhã fria não impede Nicolau de entrar no seu carro e conduzir sem destino pelas ruas da cidade que o viu nascer. Só, não é uma manhã qualquer, é 25 de dezembro, dia de Natal. Tem sido assim nos últimos anos, pelo menos desde que formou família, deambula pelas ruas, guiando, à procura de um café aberto. Indubitavelmente acaba por entrar sempre no mesmo, o que está aberto na manhã desanimada do advento. Tem piada, são quase sempre os mesmos, vasculham os jornais de véspera, vêm notícias gastas e usadas pelos canais da televisão, pendurada na parede. Há quem traga um livro debaixo do braço, para continuar a leitura, terminar um capítulo, o final de uma história. Nicolau bebe o café em chávena cheia, sem meias medidas, despeja o conteúdo quase todo de uma vez, para não perder o sabor forte dos grãos moídos, dissolvidos na água quente, sempre escorrer da máquina, na manhã fria. Depois fica ali sentado a olhar para nenhures, só a sua cabeça acelera em sentido contrário, de volta aos natais da sua meninice. Nas noites que antecediam o nascimento do Messias, ao redor da lareira, onde a velha frigideira de ferro pousada na trempe, cheia de azeite, aquecido pelo lume que lhe lambia a base. Enquanto a massa flutuava no óleo de oliva, e um garfo com dois enormes dentes auxiliava a virar esta, pouco maleável e cada vez mais dourada, ouvia as histórias. Não tirava os olhos do lume, nesse tempo o protagonista era o Menino Jesus, atualmente, Pai Natal. Sempre junto da mãe, das tias, Nicolau, sonhava com o Menino Jesus, e as prendas para deixar no sapato colocado junto da lareira. O pai e os tios dialogavam sentados à mesa, petiscando e bebendo vinho. Nicolau deixou de os ouvir, o café ficou para trás, a memória levou-o para lugares que poucos conheciam, ou de ouviram falar alguma vez, a Terra Fantástica. No dia, onde subitamente lhe surgiram quatro Duendes, Eni, uma jovem cheia de graça, Kauan, apelidado de Falcão, sempre em alerta com o mundo, Aila, a luz e a nobreza em pessoa, e Alvar, o guerreiro. Nicolau rachava lenha, não muito longe, estavam quatro coelhos observando-o, quando de repente surgiu apressadamente da floresta, um lobo a rezingar ferozmente na direção dos pequenos animais selvagens. Nicolau quando dirigiu o olhar para o local onde estavam os coelhos, não os viu, no seu lugar estavam quatro criaturas com umas orelhas enormes. Em voz alta disse umas palavras para o lobo. Desorientado e inseguro com o que ouviu, o lobo afastou-se uivando prolongadamente, como se o mundo fosse desabar. As criaturas indecisas, não sabiam o que fazer, olharam uns para os outros surpreendidos, não eram coelhos, mas sim, duendes. Foram descobertos por aquele homem vigoroso, que os observava cheio de curiosidade. Submersos na escuridão, expostos ao frio permanente naquela terra, Nicolau convidou-os para o seguirem a sua casa. Os duendes sabiam que tinham observado no céu, umas léguas atrás, o sinal previsto. A marca anunciada desde os primeiros tempos, no seio do povo Sami, pastores que seguiam os rebanhos pelos trilhos das terras de Rovaniemi. Reconheceram no homem a quem confiavam agora a estadia na sua casa, o elo para finalizarem a aventura que os levou ali. Relataram a Nicolau a sua origem, a finalidade da missão naquelas terras no meio dos vales, distantes das montanhas. A lareira da casa do Nicolau tinha uma boca larga e funda, os pequenos duendes estavam sentados no mesmo espaço onde as chamas dançavam com alegria. Espalhavam no ar palavras de fogo, que se apagavam bruscamente nas correntes de ar, borrachas invisíveis. Foi assim que souberam o rumo da sua missão, de um momento para o outro, o fogo entusiasmou-se, as fagulhas começaram a dispersarem ao mesmo tempo, o som da fogueira em combustão transformou-se numa voz rouca. Os duendes, mágicos das florestas, não esperavam aquele acontecimento, ficaram pregados nos bancos a ouvirem o fogo. A chamas aumentavam ou diminuíam consoante a altivez da voz, foram informados da continuação da viagem até ao sopé das grandes montanhas. À terra onde o sol permanece pouco tempo, teriam de capturar seis possantes renas brancas. Domestica-las não seria difícil, habituados no território de Rovaniemi a esse trabalho, tinham somente de empregar a magia para as seduzirem. Mesmo assim o resto da missão seria uma tarefa complicada para estes amigos. Nunca pensaram, para atingirem os objetivos, teriam de arriscarem as suas vidas até à Terra do Sol Minguado. Os cinco, Nicolau também os acompanharia, não deixaram as horas de um novo dia se adiantassem muito. Puseram-se ao caminho, o silêncio ensurdecedor na escuridão perseguia-os, habituados há ausência de luz, caminhavam atentos, para não serem surpreendidos por algum animal faminto. Nicolau abria o trilho, seguido pelos quatro amigos entusiasmados de serem eles os escolhidos pelo seu povo a atingirem a Terra dos Contos de Natal. De onde vinham, a passagem de forasteiros por lá, trazia sempre, vozes a falarem, desse lugar encantado, onde as pessoas cresciam a ouvirem histórias sobre o Natal. Mas, nenhum deles a conhecia, tinham lido nos livros antigos, esses livros nunca tinham chegado às paragens de onde eram originários. A curiosidade foi crescendo no povo Sami, sobre a Terra dos Contos de Natal. Seria a oportunidade dos Sami recuperarem os sorrisos, de fazerem novamente travessuras pelas casas durante as visitas sem serem notados, quando todos dormiam. Nicolau, é o que tem maior conhecimento nas entradas furtivas, penetrando nas habitações pelos locais mais improváveis. Necessitavam da sua experiência, do meio de transporte, na viagem ao futuro, para alcançarem o objetivo para o qual foral eleitos. O rosto bonacheirão do gigante que os conduzia pelo apertado trilho, rodou na direção das pequenas criaturas. – Têm forças para continuarem? – Perguntou o Nicolau. Debaixo da forte tempestade de neve, há algumas horas não os abandonava. – Apesar de termos uma estatura muito reduzida, possuímos força. – Respondeu Aila. – Comandei o exército Samir em muitas batalhas nas terras de Inari, contra grupos étnicos de eslavos. – Disse Alvar. – Somos um povo de pastoreio, habituados a percorrermos caminhos difíceis pelas montanhas a vigiarmos as renas. – Consolidou Kauan. – Habitamos numa vasta área, acampamos poucos dias, nos sítios escolhidos, em segurança ao longo do nosso território, debaixo das tendas feitas das peles dos animais que capturamos. – Acrescentou Eni. Impacientes, precipitaram-se no trilho, continuando a percorrerem a longa distância que os separava da região onde habitavam as renas que, supostamente os levariam à Terra dos Contos de Natal. A cadeia, de montanhas deixaram-se avistar, a tempestade ficou há algumas léguas para trás, de noite, ali, no trilho, estava clara, a lua era a rainha. O ânimo tomou conta dos nossos amigos, acelerando-lhes os passos, seria esse o alimento para entrarem na Terra do Sol Minguado. Os primeiros raios solares examinaram da cabeça aos pés os cinco aventureiros, parados no planalto, uma varanda impossível de medir, com uma panorâmica de perder a vista para um vale. Dali, onde estavam assemelhava-se a uma enorme e larga cova, cujas extremidades iam ao encontro ao sopé das montanhas ao longe. No centro desta maravilha natural era possível verem as manadas de renas a pastarem. Assemelhavam-se a pequenos pontos a movimentarem-se lentamente, procurando a erva mais tenra. Demoraram a encontrar o caminho certo para descerem pelos despenhadeiros, por fim, a tundra. A tarefa agora, seria encararem as renas selecionadas e captura-las. Animais poderosos, os machos tinham a seu favor os enormes chifres, usando-os ferozmente quando se sentiam ameaçados. – Serão vocês a assumirem a captura dos animais. – Mencionou Nicolau. – Só assim conseguirão finalizar com sucesso a missão. – Completou. – Temos um plano para os desorientar. – Disse o Kauan. Os outros dois já estavam preparados para iniciarem a perseguição. Nicolau dissimulou-se na vegetação, ficou a observar os pequenos duendes a realizarem a caçada. Os seus antepassados, onde estiverem, estão orgulhosos. – Pensou Nicolau. Oito orelhas de coelhos destacam-se na tundra, aproximam-se das renas, sem desconfiarem, os animais continuavam a comer a erva macia. De um momento para o outro, os coelhos transformaram-se nos pequenos duendes, das bolsas penduradas aos ombros, tiraram bagas de azevinho. Arremessaram-nas com ímpeto para o ar, em contato com o exterior, rebentaram, perturbando a serenidade do local, desconcentrando as renas ao mesmo tempo. Rodearam-nas, não as deixaram sair do círculo imaginário. Cansadas, as renas pararam, deixaram-se prender por cordas ao redor do pescoço, lançadas pelos duendes. Nicolau juntou-se-lhes ainda com os olhos brilhantes com o que tinha acabado de testemunhar. Os duendes estavam tranquilos, habituados que estavam a fazer estas capturas. No regresso à Terra Fantástica não houve conversas, deixaram a Terra do Sol Minguado, a escuridão abraçou-os, as renas tranquilas, guiavam-nos. A casa de Nicolau estava com animação, a viagem ao futuro, à terra dos Contos de Natal, não seria exclusiva. Andavam os duendes e o Nicolau atarefados com as prendas, o enorme trenó, no qual fariam a desejada viagem tem espaço de sobra para as diversas lembranças. – Como irão receber-nos as pessoas da Terra dos Contos de Natal? Atirou par o ar Eni. – Não serão vistos, naquela terra serão invisíveis. – Respondeu Nicolau. – Oh! – Exclamou Kauan. – Para acontecer magia no Natal, a nossa força terá de ser um sentimento que não se vê. – Disse Nicolau. Continuaram a trabalhar, embrulhando e acondicionando no trenó as lembranças que transportariam para oferecerem pelos lugares que atravessariam na longa viagem até à Terra dos Contos de Natal. As renas comiam do melhor capim e arbustos. Para além destes tinham plantas com botões florais, como suplemento energético para enfrentarem a viagem. O nervosismo instalou-se nos pequenos duendes, nunca tinham experimentado uma viagem tão longa. A maior viagem realizada até ao momento, foi a que os levou à Terra Fantástica e à Terra do Sol Minguado. A que se segue seria diferente, ao futuro, à Terra dos Contos de Natal. As renas corriam o melhor que podiam até ao final do penhasco, depois o infinito, as estrelas, seria a via pela qual chegariam ao destino. O trenó flutuava no ar, Nicolau, conduzia com agilidade as renas, os quatros amigos duendes, não tinham palavras para exprimirem o que sentiam. Entraram no futuro, uma bola de fogo entrou na atmosfera e desapareceu, foi desta maneira que interpretaram a fugaz aparição, os felizardos que observaram o momento, na Terra dos Contos de Natal. Nicolau concentrou a condução do trenó aquando a sua passagem nas zonas de conflito para largar lembranças, voltou a subir, evitou embater nos cumes mais altos das cordilheiras. Desceu o trenó, ao ponto de navegar uma breve distância nas águas dos oceanos. Os duendes nunca estiveram tão inquietos como agora. Estavam longe de imaginarem o que a aventura lhes está a mostrar. A tarde acomodava-se no crepúsculo, o frio gelava os ossos, as pessoas escutavam a voz da terra, testemunhavam a sabedoria popular na Terra dos Contos de Natal.

À roda desta mesa ...

historiasabeirario, 14.02.23

Recentemente almocei num restaurante cujo conceito para servir os clientes é o self-service.  Nada contra o serviço prestado, é mais rápido, apresentam um mostruário diversificado, abrangendo o alimento mais simples ao mais sofisticado. Uma panóplia de cores, sabores e odores onde os sentidos esbarram uns com os outros, causando indecisões, embaraços na selecção da refeição. Sentado na mesa a degustar, apreciando o ambiente instalado na sala de refeições, o movimento no auge, pelos lugares ocupados, bocas famintas não paravam de mastigar, falando e comendo ao mesmo tempo. Os demais, nas filas para se servirem do que os olhos tinham alcançado, ansiando o pedaço de carne logo ali à vista, que a qualquer momento poderá ir para outro prato, a posta do peixe acabada de ser colocada no recipiente próprio, a sopa fumegante para agasalhar imediatamente o estômago ou a salada fresca escoltando uma variedade de pratos. Outros não paravam de andar de um lado para o outro, ambicionando lugares vagos, também os havia parecidos com as moscas varejeira a rondarem os doces. Foi nesta última montra que ocorreu um comportamento que me despertou, sendo protagonista uma das comensais que estava na mesa próxima da minha. O conjunto exceptuando dois, sentado, tinha estrutura volumosa, bons garfos, a comida nos pratos não ficava nada a dever à montanha da ilha do Pico. Iam e vinham mais do que uma vez, com as doses sempre iguais em altura. À roda desta mesa Ettore Scola não largaria a câmara de filmar. Numa destas digressões um prato cheio de sobremesa  evidenciando uma quantidade de molotof disposto na sua base, não me lembro de ter visto algo semelhante, curioso, quem o trouxe voltou novamente  surgindo com outra dose mais elevada. Prato na mão, olhos faiscando na direcção da cordilheira doce, uma cachoeira escorrendo pelo queixo, uma  sofreguidão abismal sem fim, cobiçando comida.

Parar a víbora que não se cansa de nos enganar

historiasabeirario, 02.09.22

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Estou num estrado, não sou farsante, mas muitas vezes sou malabarista, tais são as acções para mover figuras quase estáticas, não fossem os movimentos dos braços para levarem os cigarros, ou as garrafas de cervejas à boca. Andando por lugares afastados, onde o vento é rei e se escuta o silêncio, sobressaem as dependências a enganar o tempo perdido. O trabalho que pode ou não acontecer, a boleia da prestação do Rendimento de Inserção Social, são âncoras que os prendem à terra. Os dias passam e eles não desistem daquilo, não tentam fazer algo diferente, todas as vezes que disponho o piso sobrelevado, abro o cenário, ali estão eles sentados, pernas estendidas, a dizerem para quem não sabe, que estão esgotados do trabalho realizado. Olham de soslaio os as personagens, emborcando goles de cerveja, demonstrando que a sua condição está certa. Esta endemia social é preocupante, todos falam nela, ninguém a quer estagnar até à sua erradicação. Uma serpente cada vez mais comprida, que atravessa o país de uma ponta à outra, sinuosa do mar à fronteira, esvaziando os cofres públicos, impossibilitando aumentos salariais de pensões, progressões nas carreiras. No tempo em que se fala a voz alta da cidadania que todos nós deveríamos realizar, o acto mais importante da condição dos direitos civis, políticos e sociais, seria parar a víbora que não se cansa de nos enganar.

O choque dos materiais...

historiasabeirario, 30.08.22

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As viaturas não se cansam de transitar na estrada que atravessa a povoação. No ponto nevrálgico desta, está acomodada uma passadeira para quem necessite de se deslocar de um lado para o outro. Resolução de um problema, incompatível aos que se aproximam apressados conduzindo as suas máquinas, não é raro ouvir sons metálicos ao sobreporem a passadeira. Surpresa, expressões pavorosas naqueles que conduzem e nos que os acompanham quando a melodia excêntrica se expressa. O choque dos materiais arrepia quem ouve e vê o sofrimento imposto no esqueleto das viaturas, pelo desconhecimento, e ambição de acelerar o mais depressa possível sem medir as consequências. A passadeira poderia estar vestida como se fosse a um casamento, assim seria notada ao longe, e não se atreveriam a sobrepor-la tão vilmente. Enroupada, cobrindo o seu corpo de modo a dar nas vistas, cores garridas, adornada com bijutaria brilhante, faria quase parar quem viesse insensível à aproximação da larga passagem elevada, estendida na estrada.

Qual o conselho que preciso de dar a mim mesma

historiasabeirario, 24.05.22

O primeiro aviso que preciso é lembrar-me de escrever empregando sempre o substantivo masculino quando me refiro à minha pessoa. O seguinte como exemplo entender mentalmente nos últimos tempos a compra de um automóvel, dos modernos, que circula impelido a eletricidade. O parecer relativo a este desejo é o tempo que disponho, estar quase sempre ocupado, se conseguirei ter algum, uma hora, meia hora, para esperar que a bateria do mesmo carregue, para não ter que ficar parado num qualquer lugar sem fulgor para chegar ao destino. Ou se a ambição de o adquirir modifique o meu ponto de vista daquilo que entendo pelo andamento da minha vida. Se há indolência para umas coisas (as que não gosto ou não quero realizar), usando outro substantivo, tempo. Sendo assim andarei a enganar-me diariamente, poderia ter uma melhor organização dos períodos que disponho, ocupados consoante o interesse atribuído a algo. Usar um agasalho ou simplesmente ignorar de o trazer num dia como o de hoje. Não foi certamente uma boa decisão, ter ficado arrumado na gaveta, foi o melhor no momento, teria que o carregar ao ombro, nunca o iria vestir, enganei-me redondamente. Por último será recomendável publicar o que estou a terminar de escrever ou seleccionar e carregar na tecla delete?

 

 

 

Algo inspirador na 11ª imagem...

historiasabeirario, 17.05.22

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Algo inspirador na 11ª imagem do meu telemóvel que não é nada de entusiasmante. Um gigante que transformou a paisagem, um gigante que colocou esperança que não se concretizou. Um gigante adormecido nas amarras do tempo presente. Inicialmente trouxe prosperidade e vaidade, não passou disso mesmo tal a brevidade ilusória da riqueza e ostentação de quem acreditou, investiu e perdeu tudo. Um titã devorador, alimentado do derivado da combustão incompleta de matérias orgânicas, diariamente três cavalos de ferro puxavam vinte uma carruagens de transporte de mercadorias, lotadas do alimento necessário para movimentar este ser que por pouco não nos transportava para a mitologia grega. Gostava de ouvir o som da máquina a passar na estrada de ferro um pouco mais abaixo da janela, acompanhando o rio para montante. Aos seus pés pequeninos homens ergueram a vida, criaram família sustentados pela energia do gigante. De um momento para o outro tudo terminou com o prolongamento de uma batalha, combatida ferozmente, onde um dos lados começou a ganhar adeptos pelo motivo da luta que executava. O lado que sempre venceu derrubava barreiras de areia, enquanto o outro desmoronava barreiras de betão. Este último ganhou consenso, foi pelo confronto com obstáculos mais difíceis que o caminho está a pretender ser mais saudável. O futuro do gigante ainda é incerto, embora não haja falta de alternativas para o levantar novamente, vamos aguardar pelo que aí virá nos próximos tempos, que os homens pequeninos sejam gigantes na melhor decisão.

Uma carta para alguém

historiasabeirario, 09.05.22

Organização de folhas em papel escrito, uma carta ou missiva como queiram designar, dirigidas a alguém. Dobrada e introduzida num envelope, a transmitir palavras de amor, de ódio, de saudade, umas atravessam continentes, outras são já ali ao lado. No início foram comunicadas pela oralidade, depois  na tábua de argila de madeira. Daqui ao pergaminho, ao papiro, foi um instante, mas não foi,  depois a escrita nunca mais parou. Cartas pessoais, cartas comerciais, cartas de apresentação, cartas familiares, sei lá, mais cartas que se possam escrever. Mas, uma carta para alguém, a uma pessoa sobre a qual nada se sabe, a quem tenha partido e não volte mais. Uma carta para alguém, que nos merece consideração. Uma carta a alguém, que já não esteja entre nós. Uma carta para alguém, a Putin, que repense nas acções que desencadeou. Uma carta a alguém, a Deus, que nos dê esperança. Seguidamente a escrita, letras bonitas com traços perfeitos, letras furiosas com traços rasgados, letras desembaraçadas, letras que denotam interrogação, letras com vontade de reviver. Uma carta para alguém, a você e a ti que me desafiaram este tema.

Podemos assim dizer...

historiasabeirario, 07.01.22

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São constantes as pessoas enfiadas umas nas outras, há uns tempos para cá em todas as cidades de Portugal. Filas ou bichas, são variadas as designações para esta demonstração leal  ao exame. Até pode ser confundida com a região zoogeográfica que compreende a Ásia meridional e as ilhas da Malásia, indiana. Este atordoamento alastra-se até a uma variedade de bananeira do Brasil. Podemos assim dizer que estamos num Estado em linha, onde o limite poderá ser o próximo dia 30, a partir daqui, tudo ao molhe e Fé em Deus, uns para não ficarem desalinhados, outros aproveitando a desordem autorizada para dar largas ao final antecipado da clausura a que estavam sujeitos. Sim, final pois quem que irá aceitar o retrocesso? Na astúcia com o desarranjo da geringonça há que procurar novo alinhamento, falta saber quais as peças que se encaixarão, para que não haja mais uma desilusão que impeça de voltar a colocar tudo em linha recta.

Os homens são outros...

historiasabeirario, 06.01.22

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No convento, atrás de mim, na janela por onde olharam a religiosa, o religioso, a nobreza, o militar, o aluno, o professor e tantos outros. Onde actualmente olho eu, o que vejo não é o mesmo que os outros viram, o panorama está diferente, a saliência elevada despida de qualquer estrutura, permitia que o olhar se distanciasse em liberdade. A pouco e pouco fundaram-se alicerces, nem todos conseguiram enfrentar intempéries, excesso de algum poder e o progresso. As poucas que resistiram, remendadas e sem grande desfiguramento com o avanço do tempo, pavoneiam-se vaidosas por se sentirem úteis a quem as habita ou usa. Um largo que foi praça de armas, lugar de reunião e encontros, de passeios de distracção, mostrar roupas novas, mexericar, exibe-se agora diferente. Para lá destas disposições que os olhares captaram, houve emoções de quem sondava as diversas perspectivas que foram acontecendo. Como seriam os sentimentos dos primeiros que daqui olharam para o vazio, do receio pelo que estaria por vir, de solidão ou ódio por os terem enviado para o resto das suas vidas à contemplação condenada. Pelo pavor das guerras anunciadas, até aos tempos mais próximos, da lição mal estudada, onde o mestre reagiria de modo a emendar a aversão ao estudo. Nos dias de hoje ao olhar pela janela as representações estão mais preenchidas, o sentimento mantém-se igual, o que está lá fora continua a trazer desconfiança, as doenças continuam, os conflitos estão a qualquer momento à nossa frente. Os homens são outros, com os mesmos desejos e objectivos.

Após concebidos não se pode fazer nada melhor

historiasabeirario, 27.12.21

Lá fora deixou de chover há umas horas, após outras tantas a fio em que a água não se cansou da sua teimosia. Até parecia que lá em cima se tinha rompido um dos tubos que cruzam o firmamento e que toda a água existente acabaria por inundar tudo cá em baixo. Não foi assim que aconteceu, alguém ou um qualquer fenómeno conseguiu estancar a rotura. Ainda bem, pois foi no meio deste turbilhão que iniciei a leitura de um livro, os meus dedos não se cansam de passear nas folhas, mas só ainda vou no principio e já estou pronto a devorar o resto que falta ler. As poucas páginas apreciadas fizeram-me viajar para locais remotos, fiquei surpreso por naquele tempo a procura de histórias, por cavaleiros enviados a mando de um poderoso senhor se tornaram numa autêntica perseguição a algo, que como disse Umberto Eco «pertence à mesma categoria do que a colher, o martelo, a roda ou a tesoura». Após concebidos não se pode fazer nada melhor. Ainda na exploração em diagonal, numa intromissão sem vergonha dei conta de que o meu desempenho diário, que não me canso de realizar, já o era feito nesse tempo muito antigo, os livros viajantes. Ah! - Estava a esquecer-me o título do livro que está no princípio ainda, que ando a ler é " O infinito num Junco " da autora Irene Vallejo. Não percam a sua leitura, nos últimos tempo é do melhor que estou a ler.