Os nossos contos de Natal - 2024

Na pequena aldeia, o conjunto de casas encostadas umas às outras, iguais na construção, situadas ao redor do largo que dá refugio à Feira de Natal, têm os telhados com neve. Numas, a neve já se desprende do alto dos telhados, apanhando de surpresa os duendes ao saírem para o espaço que recebe a feira. Abrigada pela escuridão da noite, a neve mergulhou na aldeia com o intuito de alimentar a imaginação das pessoas. Ali, andavam elas, de baixa estatura, orelhas pontiagudas, a perscrutarem a origem do eco dos sininhos. Estavam longe de saberem, do início da viagem anual do Pai Natal, na sua carruagem puxada por doze robustas renas, enfeitadas por sininhos a tocarem, avisando a chegada das lembranças. Os sons eram cada vez mais dissonantes a medida que o Pai Natal progredia na viagem a sobrevoar a floresta mágica. Escapando às armadilhas naturais, aos predadores sequiosos de comerem a carne das renas. Figuras medonhas, carantonhas com grandes bocas, cheias de dentes afiados, espreitando o mínimo deslize, na condução da carruagem. A inquietação no largo via-se a olho nu, os rostos dos duendes estavam cada vez mais verdes, a perspectiva de conhecerem a personagem imaginária, detentora de umas enormes barbas brancas de cor igual à da neve que caiu durante a noite, era grande. O homem gordo vestido com roupas vermelhas, sempre povoou o imaginário dos duendes, talvez, a visita da neve fosse o sinal, que tanto esperaram. Há última hora verificaram que não estavam preparados para receber tão ilustre personagem. Correram para suas casas, abriram as janelas, expondo o artesanato fabricado manualmente, trabalhos magníficos, criados a partir dos restos que a floresta deixa. Limparam muito bem as chaminés, ao longo dos tempos, através da oralidade, sabiam que o Pai Natal entrava nas casas descendo pelas chaminés. Só não tinham conhecimento que ele nunca se deixava ver. Nesse dia, em que caiu neve no decorrer da madrugada, a aldeia encheu-se de figuras pequenas, gnomos, elfos, fadas, lutins, zanganitos, os cluricaun. Até os curupira e sanguanel, oriundos dos continentes do sul, notando-se estes últimos cada vez mais na densidade populacional, juntaram-se aos primos duendes no largo. As famílias reunidas, viajavam, procurando conhecer cada uma das barracas da Feira de Natal. Não eram mais que representações, das origens dos pequenos seres presentes na aldeia. Experimentaram poderes sobrenaturais, atravessaram paredes, deslocaram-se em grandes velocidades. Alguns tele-transportaram-se, entrando assim nas casas precárias da Feira de Natal, causando admiração naqueles que os viam aproximarem-se deste modo. O Pai Natal no seu trenó avançava nos céus, apesar das contrariedades surgidas ao longo do trajecto, lá em cima o vento soprava forte, tentando arrancar as barbas brancas do Pai Natal. Ao seu ouvido murmurava-lhe segredos, o Pai Natal concentrado na condução do trenó, esforçava-se para estar atento, e conseguir ouvir o que o vento lhe segredava. Histórias dos tempos em que os gigantes povoavam as terras que o trenó sobrevoava, até ao dia em que os pequenos seres conseguiram capturar um deles e o prenderam no solo. Passando-lhe muitas cordas ao longo corpo, não permitindo que este se desprendesse, foi inspecionado muitas vezes pelas criaturas minúsculas, subiam para cima do gigante por enormes escadas. Caminhavam pela barrriga deste, uma planície cheia de obstáculos, os botões do colete, o rosto enorme, os olhos a mexerem de um lado para o outro. A boca aberta concorria com as grutas da região, mas não se atreviam a explorar o interior. As pernas do gigante, demoravam uma manhã a serem percorridas pelas pequenas criaturas. O gigante ficou assim, aprisionado, até ao dia, que as pequenas criaturas perceberam que aquela pessoa de tamanho maior que o normal era pacífica. A partir deste dia os gigantes e anões aprenderam a viver com o consentimento de todos. O vento abrandou, desprendeu-se das barbas brancas do Pai Natal, mais cómodo, fixou-se no destino, na missão de levar as lembranças, a pacificação à terra dos homens, pequenos e grandes. Entretanto na aldeia, os duendes e os primos destes, olhavam ansiosos para o céu, com esperança de avistarem o viajante do trenó. A noite adiantava-se e tirava-lhes a ilusão, prometeram entre eles, que não fechariam os olhos de noite enquanto não avistassem o Pai Natal. A noite correu com as famílias em volta das mesas nas suas casas, a comerem alimentos tradicionais, doces e guloseimas. Os olhares, constantemente estavam pousados nas lareiras, mas, nada aconteceu, adormeceram. No dia seguinte ao erguerem-se das camas, viram o largo todo branco, ouviram o silêncio das primeiras horas da manhã a cantar alegremente, coisa rara, na aldeia. Os seus olhos brilharam na direcção das lareiras, as memórias, as dádivas, as celebrações e mensagens, todas juntas, amontoadas umas nas outras, uma árvore de pé, simbolizando o agradecimento, a renovação do tempo.
